A CRISE HÍDRICA DO SUDESTE: PASSOS DE UMA
TRAGÉDIA ANUNCIADA
O ano de 2015 iniciou-se sem apresentar uma projeção para a
solução da falta de água na região sudeste. O Estado de São Paulo, epicentro da
crise hídrica sem precedentes na região, procura adotar medidas heterodoxas
para conter a escassez e busca alternativas que visem, pelo menos, reduzir o
desconforto que tal problema tem trazido aos paulistanos. Este assunto, no entanto, não deveria ter pego os
governantes paulistas de surpresa.
No início do século, em 2001, o especialista
em recursos hídricos Marcos Freitas, então diretor da Agência Nacional das
Águas (ANA), ao ser entrevistado por uma revista, à época, manifestou um
prognóstico, até então, esdrúxulo, para o ano de 2015, mas que hoje reflete a
mais pura e dura realidade. Na entrevista, Freitas afirmou que “o país, mesmo
tendo o maior volume de água doce do planeta, viveria uma grave crise hídrica.”
Em São Paulo, a população já sofre com a pressão reduzida
na rede, o que muitas vezes significa conviver com torneira seca por até 18
horas. E pior: pode ser obrigada em breve a enfrentar um rigoroso racionamento
e ficar quatro ou até cinco dias por semana sem água.
A medida drástica tem uma razão. Se a chuva não vier e o
consumo não for reduzido, os reservatórios podem ficar desabastecidos ainda no
primeiro semestre. A previsão mais pessimista fala em desabastecimento completo
em março. O cenário faz serem cogitadas possibilidades como antecipação das
férias escolares de julho para maio, uma maneira de incentivar que muitas
famílias deixem o Estado e, assim, diminuam o uso de água.
Mas se o problema era conhecido há tantos anos, por que não
foi evitado? A resposta é complexa. O fato é que a previsão de Freitas mais de
uma década atrás não tinha nada de sobrenatural. Estava baseada em números e no
comportamento do paulistano, que apresentava um descontrole com o uso racionado
da água e isto já tem influenciado negativamente, sobretudo na economia.
Os reflexos econômicos da falta de água são incontestes. Mesmo
mais preparada para a seca que se avizinhava, a indústria sente com rigor o
efeito da crise. Diversas empresas já adotavam cisternas e poços para
abastecimento, mas, com a intensidade da estiagem, pelo menos 60 mil negócios
devem ser afetados em São Paulo, segundo estimativa da Federação das Indústrias
(Fiesp). As companhias atingidas respondem por cerca de 1,5 milhão de empregos.
“A última coisa que a indústria quer fazer é reduzir os
postos de trabalho. Mas se a crise se aprofundar e a empresa for obrigada a
reduzir atividades, ficar um dia sem água, aí começará a impactar, e as empresas
terão de fazer contas”, diz Nelson
Pereira dos Reis, diretor titular do Meio Ambiente da Fiesp.
Para mitigar os impactos, a entidade está mapeando agora as
águas metropolitanas do Estado. O plano é que as empresas possam se juntar em
consórcios para construir poços e garantir o abastecimento.
A procura por águas subterrâneas, uma alternativa que
funciona bem em Ribeirão Preto, importante centro industrial, tem aumentado. O
município é responsável pelos maiores volumes de extração de água do Aquífero
Guarani no país.
Roberto Kirchheim, geólogo especializado em recursos
hídricos e ex-integrante do Projeto Aquífero Guarani, da Organização dos
Estados Americanos (OEA), explica que o recurso utilizado faz parte da taxa de
recarga, que se renova todo ano: “Se fosse usada de forma ostensiva a reserva
permanente, seria um problema, mas uma avaliação global diz que a situação de
hoje é confortável.”
No Rio, pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do
Estado (Firjan) com 487 companhias revela que 30,6% delas já enfrentam
problemas por conta do baixo nível nos reservatórios. Essas companhias empregam
aproximadamente 15% das vagas industriais fluminenses.
Em Minas Gerais, o racionamento aventado pelo governo na
região metropolitana de Belo Horizonte e no norte do Estado deve impactar no
desempenho da indústria e da mineração, que juntas representam 20% do total de
água consumido.
Consulta: Portal ZH Noticias. Sabesp. Firjan.
Da Redação.
Consulta: Portal ZH Noticias. Sabesp. Firjan.

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